Pular para o conteúdo principal

Postagens

Me dei conta

Muito me perguntava o que seria ser mulher. Desde a infância me diziam “sente-se como uma mocinha!”, “olha que brinquedinho lindo: um conjuntinho de panelas pra fazer comidinhas deliciosas!”, “menina brinca de boneca viu?”, “menina não faz xixi na rua. Segura um pouquinho que a gente já está chegando em casa”. Os anos passaram e me vi adolescente e as orientações dos mais velhos não paravam. “Primeira menstruação? Já é uma mocinha!”, “cuidado nas pernas quando estiver de saia!”, “arrume o cabelo desse jeito que assim você vai chamar a atenção dos garotos”, “que comida deliciosa! Você que fez!? Já pode casar!”, “quem é esse rapaz? Seu namoradinho? Cuidado, não existe amizade entre homem e mulher!”. Não sei em que momento exato do percurso da vida as vozes ficaram mais altas que meus pensamentos e eu não conseguia mais, por mim mesma, saber o que é ser mulher (talvez tenha sido no dia que concordei, sem pensar, que faço parte do grupo “sexo frágil”). Quando me dei conta, estava adulta...

A garota do ônibus

Eu estava sentado no ponto do ônibus, quando uma garota de olhos pretos, com o cabelo preso como um rabo de cavalo, blusa branca e calça jeans,  sorriu pra mim e sentou do meu lado. Perguntou se aquele era o ponto que dava para o lugar que ela desejava ir. Disse que sim, hipnotizado pela forma com que ela insistia em arrumar a franja apesar do vento. Depois disso, silêncio. Minha cabeça estava vazia. Não conseguia pensar num assunto interessante para “puxar” conversa. Lembrei de um vídeo no youtube hilário. Respirei e abri minha boca. Nenhum som saiu. Levei a mão rapidamente a boca e fingi que bocejava, enquanto ficava enrubescido pela falta de voz. O que diabos estava acontecendo? Olhei de relance e a vi, com fones de ouvido, cantarolando uma música e meio que dançando com pés ainda que sentada. Tentei descobrir a música mas sem sucesso. Mais silêncio. Quando estou disposto a desistir, entrego meu olhar para o fim da rua e acabo avistando o ônibus. Aperto meus olhos para enxe...

AMAdor

Conta-se a história ( estória ?), desde que o mundo é mundo, que o que nos move é amor. Todo mundo ouve isso e acredita nisso. De um jeito ou de outro. Querendo ou não querendo a gente termina dizendo que o que nos falta é amor ou o excesso dele que nos acaba por destruir. Pois bem. Devidamente abordado o tema, vamos a uma historinha ( estorinha ?). A vida era vivida como sempre por mim. Tomava meu café enquanto pensava quando as coisas mudariam ao meu redor tornando-se em amor. E assim se passaram anos. Sobrevivendo de meus traumas e tristezas, tomo decisões das menos corretas possíveis. Quase largo de mim mesmo. Mas então, afogado em minhas próprias vidas e desesperos, lutando sozinho e esquecido, encontro você. De maneira sutil, carinhosa, doce e sincera, você me anima e olhando em meus olhos sorri e diz que vai ficar tudo bem. Não sei como te agradecer. Fico em silêncio ouvindo meu coração vibrar de alegria. Havia encontrado o amor da amizade. Saíamos juntos. Comíamos ju...

Sobre-viver

Acho que perdi o jeito para escrever. Não sei se por falta de leitura substanciosa, ou conversas que preencham, ou compreensão rasas das coisas... Não sei. Estou bloqueada.  As experiências vividas, vistas, sentidas parecem insatisfatórias diante da tela de meu computador. escrevê-las? Sem registros, é melhor. Meus vícios me mantém secretamente focada em coisas menos importantes. Ando impaciente. Viro as madrugadas ouvindo músicas, entrevistas de desconhecidos, assistindo séries quase que inteiras, ou apenas jogando paciência! Tragicamente o sono não me vem. Nem o desejo da escrita. E mais uma vez estou nessa tentativa de colocar pensamentos confusos numa ordem lógica, legível e gostosa de se ver. (E penso que ando prepotente em considerar que isso aconteça exatamente com esse texto.) Em fim. Considerava que escrevia bons textos quando passava por momentos de incompreensão externas ou internas. Isso não acontece mais. Ou a vida anda muito boa e fácil e esqueceram de me a...

re começos

Mais uma vez me pego pensando no porque das finitudes.  Semana passada estava em viagem. Ao chegar ao meu destino, peguei minha mala e me direcionei para onde seria meu quarto durante aquela semana. Senti-me deslocada no processo de me habituar ao espaço que não era meu, mas havia pago, então me pertencia. Coloquei minhas coisas nos seus devidos lugares, mas não sabia ainda onde era meu lugar. Os dias se passaram e o espaço começou a fazer parte do meu conhecimento. As paredes, a cama, os móveis, o banheiro, o cheiro, a comida do lugar se tornaram familiares. Mas o momento de voltar a minha cidade chegou, e tinha que me desprender daquele lugar. Comecei, logo, tomando um demorado banho. Com a sensação de deixar escorrer pelo ralo a pele que me unia aquela cidade, pessoas e coisas, voltei a fazer a mala. Saindo do quarto, ainda segurando a maçaneta, senti o impulso de olhar para trás. Estranha sensação me invadiu. Parecia que eu nunca tinha estado lá. Engraçado. Num instante m...

Ainda sobre o que nos acontece.

Muro

Ás vezes necessito que as coisas fiquem onde estão. Que não possam ser vistas, ou sentidas por mim. É uma dor que aperta o peito e faz a respiração tornar-se fraca.   Ontem, ao ver a chuva cair aos montes, as ruas estavam como rios; ilhando e isolando qualquer um que tentasse atravessar estradas e becos a pé. Isso causou o silêncio. A cadência da chuva trazia um conforto do estar só que não deprimia, mas consolava. Uma invasão de liberdade, do não ser visto, do não importar-se com julgamentos, fez-me correr até o quintal e num impulso lancei-me na chuva. Caíam as gotas de chuva em meu rosto e eu sorria. A sensação de sentir-se só me fez rodopiar como criança que acaba de ganhar um doce. Deitei na grama e observando o céu repleto de carregadas nuvens, sinto que meu sentimento de prender tudo num espaço só sempre acontecia. O céu me prendia através de um grande muro, que me separa daquilo que não posso ver. E cada vez que desejei que coisas, sentimentos e pessoas pudessem ser pres...