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Me dei conta


Muito me perguntava o que seria ser mulher. Desde a infância me diziam “sente-se como uma mocinha!”, “olha que brinquedinho lindo: um conjuntinho de panelas pra fazer comidinhas deliciosas!”, “menina brinca de boneca viu?”, “menina não faz xixi na rua. Segura um pouquinho que a gente já está chegando em casa”. Os anos passaram e me vi adolescente e as orientações dos mais velhos não paravam. “Primeira menstruação? Já é uma mocinha!”, “cuidado nas pernas quando estiver de saia!”, “arrume o cabelo desse jeito que assim você vai chamar a atenção dos garotos”, “que comida deliciosa! Você que fez!? Já pode casar!”, “quem é esse rapaz? Seu namoradinho? Cuidado, não existe amizade entre homem e mulher!”. Não sei em que momento exato do percurso da vida as vozes ficaram mais altas que meus pensamentos e eu não conseguia mais, por mim mesma, saber o que é ser mulher (talvez tenha sido no dia que concordei, sem pensar, que faço parte do grupo “sexo frágil”). Quando me dei conta, estava adulta, casada, grávida, trabalhando tendo que dar conta de tanta coisa em casa e fora dela. Pensei em algum momento: “é assim ser mulher?”, mas quando comecei a pensar sobre isso lembrei que tinha deixado uma panela no fogão, corri e o pensamento se foi junto com o fogo que eu apaguei antes do almoço se tornar num desastre. Agora as pessoas não precisavam dizer muito sobre como deveria me portar ou fazer e dizer. Minha mente já me dizia isso. E quando agia de maneira impulsiva e alguém me reprovava, bastava um olhar e aquela frase terrível “Você é mulher!”, para que eu me recolhesse na vida e pensar sobre as coisas e sobre mim não sobrava tempo.
Recordo-me, quase que forçadamente, que todo dia 08 de Março é reservado para as mulheres. Passo por esse dia diversas vezes sem o notar ou ser notada. Isso é ser mulher? Acho que não. Essa data existe para te dizer que não é fazendo isso ou aquilo que te tornarás mais ou menos mulher. É data de lembrança para te avisar que mulher é o fazer da vida bonita do seu jeito. No seu tempo. Mulher é ser mãe? Mulher é trabalhar fora? Mulher é fazer um delicioso jantar? Mulher é cuidar do corpo? É viver independente? É ser líder? É amar? Ser feliz e completa? Então seja! Não são padrões e normas que te dizem o que é ser mulher. São teus caminhos de felicidades e lutas que te provam a mulher que és.


E a propósito: a fragilidade do ser mulher está na força de entregar seu coração em um mundo que esquece de deixar um pouco de si em tudo.

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