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Quando eu te vi - Segunda Parte

Sexta-feira de manhã. Um dia como outro qualquer. Atividades normais. Reclamo a minha mãe quão monótona anda minha vida a ponto de ninguém lembrar-se de ligar pra mim para sair ou fazer qualquer outra coisa. 
Meu celular toca. O número que está chamando é desconhecido pra mim. Como se numa afirmativa, me surge um nome de que quem está me ligando, e já me preocupo com o que pode estar começando a acontecer. Atendo.

- Oi...
- Alô, sabe quem está falando!?
- Aham. Sei sim...
- Então, qual meu nome?

Era ele. O engraçado é que não me alegrei em saber quem era. Já comecei a planejar a melhor forma de como acabar com aquilo antes que ele achasse que poderia acontecer mais alguma coisa. Não me recordo do que conversamos, mas eu insistia em ser direta mas ele não se tocava, ou queria insistir numa amizade. Estava próximo do dia dos namorados, e todos meus amigos estavam com alguém. Menos eu. 

- Você vai fazer alguma coisa nesse próximo fim de semana?
- Não. Por que?
- Ah... você sabe. Sábado vai ser dia dos namorados e todos os casais vão sair...
- Uhum, eu sei. Mas não vou sair. Não serei vela de ninguém.
- Nem eu. Você... não quer jantar comigo?

(QUÊ!? Jantar? Com ele? Dia dos Namorados? Eu e ele solteiros? O que ele quer???)
- Pode ser. (Tentei ser o mais insensível possível, mas eu me contorcia de um jeito estranho alegre (!) por ter sido convidada pra sair.) Aaahh... você que vai pagar?
- Sim.
- Então saio com você sim.

Exatamente isso que você leu. O indaguei quem pagaria a conta. Tudo na vida tem um preço, não é? E andar pelas ruas da cidade, no dia dos namorados, com alguém que não era nem amigo meu renderia muitas especulações e perguntas constrangedoras que eu teria que contornar. Então, o mínimo que ele poderia fazer era pagar a conta. 
Desligamos e contei pra minha mãe. Ela riu e disse que tinha certeza onde isso iria dar. Não concordei com ela e tratei de explicar que havia zero de interesse. 
A noite, já deitada em minha cama, meu telefone toca. Começo, até que um pouco involuntariamente, a bater no travesseiro e repetir chateada: 
- Não, não, não, não! Não acredito! Não pode ser ele! Não! Que droga!

O telefone continua a chamar e eu me recuso a atender. Minha mãe grita de seu quarto:
- Não atenda! Desligue o celular. Você não quer nada com ele mesmo...

Espera. Não quero nada? Namorar não, mas ser amigos pode ser... não é? Sem contar que vamos sair pra jantar daqui a oito dias. Decido atender.

- Oi.
- Eu não devia estar fazendo isso... Não era pra eu estar ligando...
- O quê?
- Hã!? Nada, nada... Estava falando com uma pessoa aqui.

Eram umas nove da noite. Não sei o que tanto conversamos. Faz muito tempo. Mas conversamos sobre muita coisa. Estudos, profissão, sonhos, projetos, música... Acho que gastei toda minha cota de conteúdo com ele. Esgotada de tanto conversar, silencio. Ele cala também do outro lado da linha. E  ficamos assim por um longo tempo. Nenhum de nós dois desliga, ou procura saber o por que do silêncio. Olho o relógio. Seis da manhã. Espera...
- São SEIS DA MANHÃ! A gente tem que desligar.
- Tá certo. Tchau.
- Tchau.

Vou dormir. Não penso em nada. Incrível mas não penso no que aconteceu, ou se aquela longa ligação significava alguma coisa. A semana transcorreu com sempre. Ele não me ligou e eu não me importei. Para o fim de semana fui escolher o que vestir e só então pensar em como contornar a situação caso ela passasse de um jantar. Arrumei tudo na mala, liguei pra alguns amigos e levei dinheiro extra, já cogitando mudar os planos e frustar o encontro com ele. 
Chego em meu destino, cumprimento as pessoas, abraço meus amigos e passo por ele. Dou um tchau tímido, para não chamar tanto a atenção das pessoas e ele, como que entendendo, acena com a cabeça. Percebo algo. Ele está com alguém. Olho com mais atenção e vejo que ele está com uma garota. Caio em mim e penso: "O que eu fiz vindo aqui?"


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