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Salve, grandes pensadores contemporâneos!

Nesses últimos dias aconteceu muita coisa, mas vou me deter a uma notícia, um tanto quanto, característica. Ao acessar minha conta de uma determinada rede social, fui bombardeada com uma imagem interessante. Uma prova. sim, senhoras e senhores, uma prova. E uma questão específica, que dizia: 


Oi? É isso mesmo produção? Numa prova? Em meio as minhas indagações, trago duas inquietações latentes. Então, vamos lá:

1. A questão traz Valesca Popozuda como "grande pensadora contemporânea". Grande? Maior que Ariano Suassuna, claro. Pensadora? Lógico que sim. Quem é Paulo Freire mesmo? 

2. Qual o objetivo desse ser humano ao elaborar tal questão? Ser engraçado, irônico, divertido, crítico, despreocupado, insatisfeito? Porque, convenhamos, uma questão dessa sai do nada pra lugar nenhum. 

O melhor são as críticas e logo abaixo delas, fãs desesperados, defendem a mulher lá. A própria, em sua página oficial no facebook, disse estar lisonjeada por ter sido citada em uma prova, ataca a massa ofendida com essa "se fosse MPB ou música americana, será que daria a mesma polêmica?", e ainda, como todo grande pensador humilde, diz não aceitar o elogio referido a ela lá na questão pois não se sente pronta para o peso e responsabilidade desse título. Só faltou ela terminar com os votos de vida longa "pras inimiga".

Com toda a seriedade e sinceridade? Não é porque é funk. Sério mesmo. O ponto é que essa música, com essa letra, não tem nenhuma forma de contextualizar com nenhuma realidade ou ciência. É fato que se professores puderem agregar VALOR e CONTEÚDO aos temas estudados em sala, além dos que são vistos nos livros, é fantástico. Mas tudo tem limite. Globalizar-se, tecnologizar-se, enturmar-se com esse universo jovem, rápido, prático, direto é muito importante para apresentar-lhes o dito velho, chato, difícil ou até impossível. Porém, transformar conhecimento em algo superficial, ou pior, considerar o vazio de uma letra em filosofia crítica é não saber o limite do dizer livre docência. Somos mais que letras vazias, pancadões ensurdecedores, seios fartos, traseiros siliconados, vozes gasguitas, e hashtags. Devemos ser críticos, questionadores, pensantes. Sair as ruas com faixas, gritos, apitos, pedindo, exigindo melhorias em tantos âmbitos deficientes de nosso país é lindo, patriótico, necessário. Mas chegar em casa, ligar a tv e colocar na novela, ou série norte-americana, entrar no chuveiro e colocar uma música dessa pra ouvir, ou usar um trecho da letra como legenda de sua foto em alguma rede social, faz de você tão igual ao professor que elaborou essa questão, quanto a grande pensadora.

Como diz ela, ler Machado de Assis pode até ajudar em alguma coisa, mas não é tudo. 

Eu sei, eu sei. Isso tudo é recalque. O que fazer então? Beijinho no ombro ;) 

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