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Quando é preciso deixar ir


Dia de sol. Mais uma vez abro meus olhos e questiono: "Onde está aquele sorriso de bom dia? Onde foi parar o desejo constante e feliz de cumplicidade, altruísmo e amor profundo, genuíno?" 

Sinto falta dele. Droga! Tenho que parar de pensar nisso e admitir que ele foi embora. 
"Será que foi meu abraço apertado pedindo pra ele ficar? Minhas lágrimas correndo pela face clamando que ele me entenda? Minha voz rouca e embargada pelo choro suplicando para que ele permaneça, comigo, nem que por um segundo a mais?"
Transtornada levanto-me da cama, e antes de ir ao banheiro, paro diante da janela e suspiro. Sim. Foi ali, naquele exato lugar que recebi a maldita ligação. Não devia ter atendido quando vi que era o número dele. Fecho os olhos, como se assim pudesse esquecer o que havia acontecido, e me dirijo ao banheiro. Ligo a torneira, encho as mãos de água e a lanço em meu rosto. O mesmo rosto que tantas vezes foi beijado por ele, e minhas mãos que tanto procuraram as suas numa tentativa de encontrar segurança. Olho para minha mãos tocando meu rosto entristecido refletidos no espelho. Seco meu rosto molhado por água e lágrimas.

Visto-me e vou até a cozinha para comer alguma coisa. Não sinto fome. Então me lembro que ele amava granola. Encho minha palma da mão desses grãos e saio comendo enquanto me dirijo ao carro. Não faço o percusso de sempre. É um caminho doloroso, sozinho, desamparado. Eu não queria ir, mas meus sentidos precisam vê-lo e entender que realmente acabou. 

Paro em frente a seu novo jardim. "Ele não deve ter visto como ficaram lindas essas flores!" Caminho em direção a um grupo de pessoas que estão embaixo de uma frondosa árvore. 

Procuro seus olhos de conforto. Meu coração se fecha em mim e por um instante sinto minha respiração parar. Ele está ali, olhos fechados como se quisesse absorver tudo que estava em seu redor. Toco sua mão, "será que deveria?", lanço fora esse meu pensamento, e entrelaço nossos dedos. Por que ele não responde ao meu toque? Silêncio. 

Ouço uma voz atrás de mim e reconheço, é sua mãe. Ela me dirige um olhar de afeto e diz que eu devo deixá-lo ir. Não quero. Ela me abraça e levemente me leva para longe dele. Orquídeas... eram suas flores preferidas. Tomo uma em minhas mãos e a deposito sobre seu corpo, imóvel, frio. "Deus! Porque assim, tão de repente?" 

Uma brisa suave atravessa aquele jardim florido tão desolador. Sinto-me acolhida e posso até afirmar que ouvi uma doce e calma voz me dizendo que a dor iria estar comigo, mas sua lembrança estaria gravada, vívida em mim. Suas estórias incríveis, seu sorriso divertido, seu olhar questionador, seu cheiro inconfundível... tudo. Tudo, que fazia ele ser perfeito pra mim, caminharia comigo na minha caixa de memórias do meu coração. Abraço a mim mesma, enquanto digo meu último adeus e um pequeno, tímido e singelo sorriso nasce em meu rosto e percebo que ali era exatamente o lugar onde deveria estar. Então o deixo ir.

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